segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A segunda tem o sono do domingo
e um sonido. Da coberta que arrasta na cama, do se acordar não me chama,
se for pra acordar é só pra dizer
que me
ama.

Talvez isso explique o mau humor da segunda. Se declare pra segunda pessoa do singular que você encontrar

em nome da segunda,
a primeira que chegar,
depois explique que é
brincadeira e assim
volte ao mau humor
de primeira.

A segunda é tudo cena,
é mau humor de cobertor,
terça quase sempre melhora.
Não teve carnaval,
purpurina no rosto,

Mas se ouvia a marchinha no metrô:
paulista, paulista, paulista,
pinheiros, pinheiros, pinheiros.

(seus beijos, seus beijos, seus beijos)

Era pra ser uma noite
do bloco bandaid,
pra afogar os sentimentos:

alheios, alheios, alheios.

Mas não deu:

deu medo,
deu medo,
deu medo.

Canção coada com os dedos.

Não teve bloco de carnaval,
purpurina no rosto,
nem segredos.

Mas deu medo,
deu medo,
deu medo.
Sem nuvens, chuva
ou neblina.
A Lua vizinha, recebe visita.
A esposa do amor
não vive sozinha.

domingo, 30 de agosto de 2015

Gosto muito de gente.

Pessoas são doces,
gente é salgada.

Se não escovar os dentes direito
dá cárie, e aí como dar risada?

Mas eu gosto de gente,
até doer os dentes.

Como pessoa que sou, vou
anestesiando
as cáries do caminho.

Banguela,
 sigo feliz sorrindo.

sábado, 29 de agosto de 2015

Filme queimado,
vontade que a foto
tem de ser deixada de lado,
mas a gente quando gosta 
da imagem, insiste em mostrar.
Sempre as mesmas coisas,
sempre os mesmos nadas,
pra ver se enxerga direito
o vazio
Eu tenho a impressão que os impressos são ilusões,
que o expresso se toma pelo cheiro do café,
que rapidamente desaparece na mão
de quem não tem
razão.
É tanta mãe,
é tanto pai,
é tanto filho,
tanta cidade.
Lua na caruda,
manda o povo pra rua,
nem deixa cair a chuva.
Lua na caruda
faz lembrar que o
bicho gente gosta
de companhia,
que o bicho lobo
quer comida,
que as aldeias
pedem fogueira,
danças e
festa.
Lua na caruda, cheia de vida,
a distrair na acolhida
os viventes das cavernas,
faz da noite do mundo,
lembrar que contemplá-la
sempre foi de graça.
céufie
O tempo, 
invento
da noite
e do dia.

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Eu preciso descer ali,
 perto de onde o Sol
 está batendo forte,
desejando boa sorte.

Você me avisa quando chegar?
Chegando lá podemos
 cantar uma canção bonita,
dessas que não
 falam de despedida.
Mujica é música.

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Amar é admirar,
me admiro de ter
admirado você.

Eu admiro o horizonte,
e o horizonte nem me vê.

Mesmo assim, eu o amo.

O horizonte não é de se admirar
em dias e noites de guerra.

Fica medíocre e triste.

O amor é admiravelmente
mesquinho, quando
a gente espera.

Quando perde um horizonte,
fica sem saber pra onde olhar.

Faz dias e noites de guerra.
Os versos,
da próxima página,
esperam controversos,
os olhos que não chegam.
Ansiosos, o coração dispara,
faz saltar palavra por palavra.
Com a língua de fora,
a boca pede
água, mas depois a língua
pede a palavra.
O olho corre mais que a boca,
o olho é tagarela,
pisca sem parar,
bate como a tecla.
A palavra pede água,
mas a mão
não ouve a palavra.
E vira a página.
A verdade assumida
 é tão bonita,
do contrário
é hipocrisia

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Que o engano
não seja seu,
e não se orgulhe
nem use
o que se dane,
que o desengano,
quando vem
se eu não me engano,
dá uma pane,
com o que já aconteceu,
dói como quê,
mesmo que
não seja,
mesmo que
não seja com
você.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

É preciso deixar a roupa
seguir a correnteza,
roupa segue os peixes,
filtra poluentes.
A roupa, sem ela,
o pelo, a pele
apela pelo frio.
A roupa precisa coar o rio,
pra secar na margem.
Rio espelho,
escola de narcisos.
Preciso seguir,
secar, deixar,
preciso seguir o rio
pra não chorar.

domingo, 23 de agosto de 2015

Eu vivo adiantando o relógio,
se não me atraso.
E faço de propósito,
só eu sei
o que passo.
Meus pés atendem
ao comando,
mas o tempo
faz descaso.
Eu adianto o relógio
pra primavera
chegar logo.
Uma mentira em descompasso.
Ganho minutos, segundos
horas, meses e flores.
Pra vender
por onde passo.

sábado, 22 de agosto de 2015

Sou uma poeta
de mão vazia.
Se acaso meu braço
estiver estendido,
estou buscando versos
no varal das casas,
feito ladra
de sentidos.
Se acaso ouvir latidos,
sou eu correndo
contra o vento,
buscando versos
frescos,
antes da mudança
do tempo.
A vida corre, voa, e eu tive essa percepção, no dia que andei de metrô pela primeira vez, aos cinco anos de idade, com meu avô, que parecia muito Santos Dumont, e chamava Alberto dos Santos, um poeta sonhador, do qual herdei a sandice de escrever. Lembro dele segurando as mãozinhas minhas e de meu primo, do tranco que deu a brecada, do borrado da paisagem, isso aconteceu na linha vermelha no Brás, e explica a paixão que tenho pela estação, pelo bairro, minha primeira referência de São Paulo, vinda do ABC. Até os 18 anos, o tempo passou lento como o trem, depois pegou o metrô, e aos 40 parece pegar um jatinho que nunca andei, tamanha velocidade. As imagens andam borradas pela miopia, mas carrego, assim como meu avô, enquanto pode, a juventude. A juventude no pensar. E assim me lembrei hoje do meu avô, que nunca envelheceu, e da música do Raul, que me ensinou na canção que é preferível ser a metamorfose ambulante, que corre, dá tranco e assegura o cheiro de novidade enquanto o cérebro ainda pode pensar. O dia que a velha opinião chegar, saberei que de fato envelheci, o trem vai parar na estação, e eu deixarei de ser poeta.

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Cair nos braços
dos amigos,
por princípio,
o único precipício.
Coroa de flores,
que só a vida
dá.
Feita com fitas
coloridas
e rosas imaginárias,
dores ungidas
trazida em sonhos
da Bulgária.
O que é um grande autor, em tempos que a leitura perde espaço para jogos, aplicativos, rede social? Um grande autor para a Literatura, quando essa é amplamente difundida, discutida e consumida, é aquele que utiliza com arte sua forma de escrever, trabalhando as palavras de forma que a poesia ou a falta dela enriqueça seu imaginário e traga surpresas e sentimentos até então não revelados? De forma tão natural que nem se perceba a mais requintada literatura? Um grande autor talvez seja quem faça você querer ler um livro até o fim, largar o tempo que você tem gastado a mais para acessar seu smartphone. Então rasgue seus preconceitos, pergunte para a senhora ao lado o que ela está lendo, e não consegue parar de ler em tempos de dispersão, quem sabe ela possa responder?
Quando voltarmos novamente ao gosto genuíno pela leitura, fará sentido alguns termos sobre o que é ser grande. Em tempos em que todas as classes sociais sofrem de alguma forma pela pobreza de conhecimento de qualidade, talvez grandes sejam os que têm a simplicidade de contar uma história, um causo, que prenda o leitor até o fim, como no princípio dos tempos, nas rodas, nas vilas, nas praças, nas feiras, no chão da sala, e aí todo gênero vale. Para gostar de ler vale tudo. Até sacanagem.
E a história chegou na última página, do lado da cama, perto do abajur, e vai parar na cozinha, em cima da mesa, como mexerica doce, raspa do bolo que a vó fazia e a gente tira com o dedo indicador e sai correndo. Na praça, com o primeiro beijo sem treino, entre amigos, na cócega embaixo do braço, de tarde, com o chá de hortelã que perfumou a sala, e foi parar no teatro, no melhor lugar na plateia. O livro pesado perde peso, flutua e volta pra estante, para viver novamente na mão de outro alguém. Boa noite.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Reduziram

aumentaram os presídios,
privatizaram homicídios,
mas ainda faltam escolas
para os políticos,

que os meninos
são da vida,
não entendem
nada disso.

Proibiram,
proibiram
os comícios.

Reduziram as carteiras,
os cadernos,
os professores fugiram
dos homens de terno,
que acreditam menos no céu,
e mais no inferno.

Reduziram o sorriso,
mas ninguém tem
nada com isso.

Olha os meninos,
olha as meninas,

reduzidos em pedra
da lei
de dar dó.

Um dia vão dar
o nó,
e fazer escola
da rua
com o terno
risca de giz
 na calçada.

Vocês vão ver.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015


Fotografia, é a vontade de segurar o que o olho não seguraria. Um segundo de um tempo que não volta, que precisa ser registrado para sempre. Como o cão que respira, e pra saber você precisa estar presente, enquanto a imagem nos conta outra história.
O vento bate,
ô de casa!

E arrasta.

Folhas vestem
as calçadas.

As heras se agarram
nas paredes do tempo.

A ouvir a primeira
cantata do mundo.
 olhos fulguram no céu,
incêndios na mata ciliar.
Prédios, fortalezas de pessoas,
na construção,
no início,
por princípio
na moradia.
Um prédio sem pessoas,
é a mais concreta
antipoesia.


Montanhas são escaladas para concretizar o derrubar dos problemas, e a subida, uma meditação contínua. Lá do alto, as coisas ficam tão pequenas, temos a sensação de sermos Deus, e se Deus quiser, a gente desce bem na volta. E a volta é um esvaziar do ar parado no peito, o tremer da barriga e das pernas que querem evitar a queda. Escaladas, caminhadas, é o corpo fazendo a vontade do destino, através dos músculos, do suor, dos ossos, para lembrar que estamos vivos.
Sobre conselhos: Emily Dickinson, a poeta, muito insegura dos seus escritos, se correspondeu durante vinte anos com um crítico literário, que a aconselhava a não publicar, devido a falta de rigor técnico e certa naturalidade ao escrever. Ela só foi publicada, na íntegra, após sua morte, e foi considerada um marco na literatura mundial.
Observação após leitura sobre as notas e transcrição dos poemas de Emily Dickinson, feitas pelo poeta e tradutor José Lira, no livro A Branca Voz da Solidão.
Não se preocupe,
se você deixar os 
sonhos de lado,
eles dormem.
Pessoas suam 
pessoas respiram,
pessoas comem,
pessoas 
pensam
que são pessoas,
e são.
Toda vez que a bateria do celular acaba,
ele pede pra você ficar com você, 
brincar com você, deixar correr solto o que a gente quiser.
Fluviais
Se ao menos pudesse interromper o fluxo do nariz que chorava, as pernas remediada estava, no entanto, trazia um vermelho palhaço na ponta e laterais das narinas. Não é fácil ser menina, moça, mulher, nos dias das águas. Os artifícios só deixam as flores das peles encharcadas. O banho acalma, o perfume acalenta, a toalha e o lenço secam, mas tem dia que mulher aninha, quer casa, colo de cama, chá quente e pele de cobertor.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Sorriso
quando passa,
você ganha de graça.
Sorrindo pela graça,
que deseja oferecer.
Quem não sorri de graça,
paga caro.
Se até banguela
quando sorri,
tira de si o sarro?
Vai você,
segurar o sorrir?
O sorriso de graça,
não aguenta,
faz cócegas na língua,
arreganha,
arrebenta,
mostra os dentes
de graça,
e um sorriso
contente,
pra quem passa,
vai fazer você sorrir.
Devo esclarecer
que posso chover,
faço nevar
e onde dá,
escureço,
vento, enluo,
estrelo,
esfrio,
esquento,
ensolarizo,
azulejo
arcorizo,
tempesteio,
alumio,
e também
seco e neblino.
Não adianta reclamar,
com São Pedro,
ele não tem
0800.
Assinado,
Céu.

domingo, 16 de agosto de 2015

segue cega o passo leva
Vaga
lumes,
quando chove,
não trabalham.
Pode dar choque.
Entre o certo e o errado,
o estável e o instável
a razão e o razoável.
-Saída pela direita,
leão da montanha?
-Não sei onde fica.
-E onde fica a esquerda,
amiguinho?
-Eu também não sei!
-Acho que estamos perdidos.
a vida todo dia
é ensaio,
despedidas.
antes de dormir,
saber disso,
sem dramas,
acalma.
acordar,
é comédia,
e salva.
a vida todo dia é estreia
aplauda.

sábado, 15 de agosto de 2015

Montanhas são escaladas para concretizar o derrubar dos problemas, e a subida, uma meditação contínua. Lá do alto, as coisas ficam tão pequenas, temos a sensação de sermos Deus, e se Deus quiser, a gente desce bem na volta. E a volta é um esvaziar do ar parado no peito, o tremer da barriga e das pernas que querem evitar a queda. Escaladas, caminhadas, é o corpo fazendo a vontade do destino, através dos músculos, do suor, dos ossos, para lembrar que estamos vivos.
Meu peito se afoga,
para viver
nas rocas.

E ressuscito,
no mar de Vigo.

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Eu não posso gostar de você,
e justo você que tem
um gosto de mel
com flores que nascem
em agosto.
Antes da primavera,
eu te esqueço
em algum jardim.
Abelhas colmeias em festa.
a vida todo dia é um ensaio de despedidas, antes de dormir
Ando lendo a poeta Emily Dickinson,
que era reclusa e parecia ter vivido o tudo
do mundo.
Ela é uma prova que não nascemos tábua rasa.
Maquete,
cidade esquete.
Dias de tristeza,
se deixar levar,
correnteza.
Dias de alegria,
se deixar levar,
embeleza
os dias
que não preza.
Num quadrado,
dancei em quatro tempos.
Fiquei um tempão te vendo.
Entre o chão, as pernas e os beijos.
Dancei em quatro tempos.
A mandíbula distraída
pelos olhos ficou boquiaberta.
Não sabe se é beijo,
ou bocejo.
a bênção também vem 
como estorvo,
com o nome 
de amor,
e assusta 
como um corvo,
num filme de terror.
Não importa,
sempre haverá uma porta,
uma chave.
Alguém batendo a porta.
E a porta que fecha,
e a porta que abre.
Não importa a porta.
Sempre haverá um
apertar de mão.
Então bate na porta,
que aberta
até o vento leva.
O lado ruim de ser poeta,
eu vou te contar.
Começa quando a gente por
alguém se interessa.
Então reza, que a palavra pode
complicar.
Se você escrever, veja bem,
o que pode acontecer.
Se você não está tão a fim ainda,
e sua palavra sempre está,
a paquera finda, que a palavra
sem querer entrega, até o que não é,
e nem sabe se vai dar.
Sabe como são as palavras,
nascem de pessoas,
então não são fáceis de controlar,
soltas, no papel e pelo ar,
ninguém segura a palavra.
E pode também não ser nada,
e nada demora a acontecer,
poeta é gente quase normal,
mas a palavra na gente implica.
E se gostar demais a palavra complica,
pois coloca muita cor, e quem não está tão a fim,
acha graça, e foge de pavor.
E se o poema que o amor de verdade pede,
e não vem, e acontece também,
pois a inspiração transpira tão bem,
que a poesia descansa e não vem,
e pode acontecer.
Quem não é poeta, e muita gente é,
e não sabe, poesia pega bem no silêncio,
e as palavras não saem, quando se ama,
muitas vezes, é tão gostoso,
que elas não querem dar o ar da graça,
mas a pessoa amada não vê graça.
O lado ruim de ser poeta, vou te contar!

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Luizinho

Morar embaixo da ponte, o único horizonte do Luizinho,
que não foi parar por amor, chegou até lá sozinho. 
O barraco queimou pra virar empreendimento, 
a comunidade se espalhou, e Luizinho ficou ali mesmo. 
Embaixo da ponte que não tinha pedra pontiaguda,
mas tinha uns fumantes das pedras, umas caixas empilhadas, 
cobertores cinzas. Luizinho ficava sem jeito quando a noite
trazia a Lua mais cheia. Despertador de Sol no rosto, noites de chuva,
o saco de plástico preto voador, o latido dos cachorros, 
as buzinas dos carros, um café emprestado, uma bituquinha de cigarro,
um banho no abrigo, uma princesa do lado. Luizinho, de 70 e
uns bocados, pouco dente na boca, não sabe explicar onde foram
parar os aposentos, os rendimentos, não lembra
onde colocou o cartão, traz o RG como porta-retrato,
do lado do travesseiro de roupas amarradas, 
só lhe faltaria uma casa, mas agora não lhe 
falta mais não, seus olhos brilharam com a chegada 
da Lua mais cheia, ele nem piscou, e o Sol nem precisou 
mais despertar o Luizinho, a princesa que estava do lado
não gostou, pois achou que o Luizinho morreu de amor.

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

Acordar é a palavra mais bonita que eu conheço, depois vem as outras. 
É depois de acordar, que interagimos com todas elas.
Filtro de barro,
bolinho de chuva,
saudade num trago,
a vó viu a uva.
Vestido de Sol 
do meio dia,
cortina.
A vida é risco, a lente embaça, 
mas a gente enxerga.
É carência,
ficar na passagem das entradas do coletivo, furar fila, ficar no caminho do fluxo contrário, conversar na fila do supermercado com o atendente sem ver o tempo passar, ultrapassagem, costurar na estrada. Quer melhor jeito de conhecer alguém, levar um esbarrão, chamar atenção, criar confusão? Observe, então.
A mandíbula distraída
pelos olhos ficou boquiaberta.
Não sabe se é beijo,
ou bocejo.
E nasce,
enquanto a água nos oferece,
e riscamos na pedra
o nosso nome terra,
pronunciado pelo ar,
que ao soprar na boca,
é quem primeiro nos batiza,
e vivemos fogo,
vivo na palavra vida.
O tempo
vestido
Às vezes faço
às vezes de poeta,
sinto o pulsar do mundo
pisando na Terra.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Hoje eu peguei um táxi
para a Bento Freitas,
e o motorista me deixou
na Rego Freitas,
na volta passei pela Rua Aurora,
que não era mais a mesma.
Quando cheguei na
Santo Amaro,
continuei no Centro,
e assim vamos vivendo.
Descendo para o
Terminal Bandeiras,
dei bandeira,
me disseram para ir
com comedimento,
e sentimento,
e assim vamos vivendo.
Dando voltas e voltando ao Centro.
A primeira vez que
vi a Mulher Maravilha, era criança.
Era aniversário dela,
que fazia sete anos.
A Mulher Maravilha,
cresceu muito linda,
tinha os cabelos pretos,
sobrancelhas grossas
e sardinhas.
E quando sorria,
a Mulher Maravilha
salvava o dia.
A Carla, na inocência,
cresceu poema,
mas ela não sabia.
Que era a Mulher Maravilha.
Folhas grudadas na sola,
são histórias contadas.

Folhas corridas.

Folhas partidas.

Folhas de chegadas.

São pedaços das árvores
que põe o pé na estrada.
O mundo virtual é uma praga,
que faz você querer estar 
onde você não estava.
Meu pai, quando eu era criança,
disse que não era estrangeiro,
que não era brasileiro.
Entendi que era meu pai.
Eu vi um pai e um filho, sentado num banco de madeira de feira. Hora do almoço de domingo, e não estava dormindo. Pinheiros sem rio, estação sem entrada. Solidão de pai, de filho, de todo espírito santo. Espero que ele ainda esteja bem.
Será que eu escrevo
como quem
se rasteja?
Sinuosas curvas
entre as serifas, 
que implora por vogais acesas,
consoantes indecisas?
Será que escrevo
como
quem leva o livro
embaixo do braço,
procurando por autoestima,
em rimas de descompasso?
Que essa crise sempre me
acompanhe e que eu não
me engane
com o descaso.
ilhas e filhos,

mães 

e paisagens.
Prédios são fortalezas de pessoas.
Folhas que grudam na sola,
são histórias
calçadas.
Janelas, vagalumes da cidade.
Um minuto de silêncio aos que na inocência, 
nem sabem que são poemas.


sábado, 8 de agosto de 2015

Pelos mesmos lugares,
prometemos distâncias
de um metro e meio,
em passeios regulares.

Descobrimos que somos bichos,
que esquecemos das convenções
de Genebra,
do Tratado de Tordesilhas,
dos conflitos da guerra.

Que podíamos esquecer que juntos
não estamos mais, que o orgulho
diante do amor fala baixinho.

Que podíamos voltar
esquecidos
pelo mesmo caminho.
Ao ouvir dizer que o calor no inverno,
seria o anúncio do fim do mundo.
O Trópico de Capricórnio,
não achou graça nenhuma,
vai mandar vento com frente fria,
mas ainda não sabe o dia.
Sudeste, com inveja do nordeste,
inverno cabra da peste.
As pessoas se enganam,
querem adivinhar,
mas o coração
faz outros planos.
A Ismália,
quando viu o reflexo da Lua,
deu um mergulho,
pra alcançar.
Ela voltou abraçada pelo mar,
e foi aplaudida por
conseguir
desviar
dos barcos,
dos peixes,
das roupas.
E dos amores
que se perdem
na parte branca,
no mirar sem pupilas.
Perdido,
de quem
olha para a Lua louca.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A decepção
faz você ficar
até tarde,
de propósito,
ela quer que você 
pense nela.
Então, pense.
Pense o quanto
podia ter sido
diferente.
E não tenha vergonha de
se arrepender.
Pode acreditar,
a decepção
também mente,
tem insônia,
e depois sonha,
de repente.
Ela pode dizer a verdade.
O que ela disser,
aceite.
A decepção é um recurso
que muda as tramas,
está na boca de quem tanto reclama,
e fica no peito de quem não se ama.
A decepção é a santa que aparece
na hora mais imprópria
para você acordar.
Caso ela aparecer,
não brigue,
mantenha a educação,
que a decepção,
se você não insistir,
e não pedir pra ficar,
vai embora rapidinho.
Quando a tristeza aparecer,
ela vai fazer a mesma coisa,
mas agora você já sabe o que fazer.
Papéis trocados,
confetes
Na água.
Papel machê,
eu e você na praça.
Deveria ser proibido,
escolher cores para
marcar partidos.
Deveria ser proibido
escolher nomes
de saudações e palavras
fáceis na boca
dos produtos.
Deveria ser proibido,
ficar de luto.
Deveria ser proibido,
dizer que é proibido.
Leis e regras são feitas
para pessoas
indisciplinadas.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

A vontade de escrever
é tamanha.
Vou fazer um esforço,
entrar no
cala-bouço.
Deixar as mãos quietas.
No escuro
sem papéis,
sem artifício,
sem telas.
Vou deixar as portas abertas.
Pra correr o risco,
de voltar ao início,
ensinar um homem
das cavernas,
até chegar
ao hieróglifo,
e fazer
meu
grifo.
meu 
grifo.
Pessoas joias raras
que se perdem
nas calçadas.
O que podia ser o amor,
parou e perguntou
ao transeunte,
na avenida
o que o amor seria.

E como sorria,
trazia em si
 toda a covardia
de ser.

Em balões de oxigênio
de um peito sem par,
podia ser lido:

Quem vai me levar
pra passear, mesmo
quando não estiver
 comigo?

Quem vai me ligar,
mesmo quando não
estiver
ligando?

Quem vai me beijar,
mesmo, quando
não estiver me beijando?

Quem estará,
sem estar?

Foi então,
que sem poder falar
o que pensar,
abriu mão da loucura do que for,
pegou o primeiro táxi,

 e fugiu

do amor.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

O corpo encurva
e reverencia
um pequeno aparelho.

O pescoço
 tensiona,
e o dedo em veloz agonia
bate o martelo.

O peito se fecha,
a mandíbula serra,
os olhos não acreditam
no que estão vendo.

O virtual se encerra,
quando alguém na Terra,
finge que está vivendo.

domingo, 2 de agosto de 2015

Pra gostar
fui contradizer,
o belo.

A imperfeição
tem o charme
que espero.
O cachorro não enxerga, é um cocker spaniel, sem olfato, quase se arrasta, está por pouco a roer os ossos da carne, mas é apaixonado por uma pinscher, que quase não tem mais os dentes. Ela é seu cão guia, quem fareja a comida, quem coça suas costas, em quem se esfrega quando tentam simular o sexo, pois nunca conseguem consumar o ato. Acho que isso também é amor.
A chuva que foi guardada,
hoje trouxe o Sol.

sábado, 1 de agosto de 2015

A Lua está cheia,
agosto me carregue,
Deus me proteja.
As telas,
meia arrastão dos prédios,
proteção da colmeia.
Trabalhei tantos anos no Centro,
que achava que o Centro,
morava aqui dentro.
Fumante passiva, 
sedenta por chuva.
Trabalhei tantos anos no Centro,
que achei que o Centro morava
aqui dentro.
Um dia eu mudei,
me casei com a cidade,
mas não esqueço do Centro.
Que o Centro ainda mora aqui dentro.