quinta-feira, 21 de junho de 2012

Triste é viver sem um esbarrão.

Vivia muito sozinho. Nem o porteiro ouvia sua voz soprada, quando descia do lugar mais fácil de viver no Copan. Tinha sempre trinta bons motivos para seu passeio das cinco horas da tarde. Esbarraria em pelo menos trinta transeuntes.
Não tinha preferência, saliência, era carência da boa. Salvo algumas guardachuvadas na cabeça, e umas bitucas de cigarro no braço, seu passeio era algo que preenchia o vazio da sala, quarto, banheiro, panelas e plantas. Cada esbarrão um acontecimento. Mas para ser especial tinha que olhar nos olhos do cidadão depois da esbarrada, pedir perdão, ouvir um não foi nada ou você é um filha da puta! Na volta, servia a janta, abria a janela, olhava a cidade e falava sozinho que teria um bom apetite, mastigando a solidão que não arderia mais em seu peito, até o próximo passeio.    
                                                                             Por Maira Garcia


4 comentários:

  1. "...mastigando a solidão que não arderia mais em seu peito até o próximo passeio".

    Gostei muito ;)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Bárbara!!Que alegria sua visita, moça! Eu também gostei muito da sua gentil esbarrada por aqui!

      Excluir